As relações de amizade entre Che Guevara e Leonel Brizola

 

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Brizola com Che Guevara: diálogo uruguaio (Foto: Flávio Tavares)

A Globonews exibe neste sábado, às 21:05, no DOSSIÊ GLOBONEWS (com reprise no domingo, ao meio-dia e meia), a entrevista que o locutor-que-vos-fala fez com um brasileiro que viu, ouviu e fotografou o guerrilheiro Ernesto Che Guevara durante a conferência pan-americana promovida no Uruguai, em 1961. O brasileiro se chama Flávio Tavares. É jornalista dublê de fotógrafo. Deve publicar, no segundo semestre, um livro que reúne todas as fotos que tirou naquela expedição uruguaia – e as lembranças que guardou do Che. A revolução dos barbudos já tinha triunfado em Cuba. Nomeado ministro da Indústria e Comércio, o argentino Che Guevara desembarcou no Uruguai como estrela da conferência. O então governador do Rio Grande do Sul, Leonel Brizola, fazia parte da delegação brasileira. Flávio Tavares tinha um bloco de anotações na mão e uma máquina fotográfica pendurada no pescoço. Atuou como intermediário de um encontro entre os dois. Não imaginava que Che Guevara iria se transformar em mito – hoje, aliás, submetido a uma revisão histórica que corrige uma quimera:  o Che não é apenas o jovem médico que um dia sai de casa, na Argentina, romanticamente, para semear revoluções pelas serras e cordilheiras da América.  Era, também, um comandante “implacável” que participou de execuções de adversários. Flávio faz uma ressalva:  ali, naqueles encontros no Uruguai, Che ainda era, aos olhos de um jovem como ele, apenas o “herói” que se embrenhou nas montanhas para combater uma ditadura que transformara Cuba em quintal dos EUA. Um trecho da entrevista:

Qual foi o comentário mais surpreendente que você ouviu de Che Guevara ?

Flávio Tavares:  “Perguntei o que era importante para um combatente,na guerrilha. O Che disse assim: “Os pés!”. E começou a bater nas botas e a descrever a importância dos pés para um combatenbte: os pés que nos levam para a frente, os pés que nos fazem retroceder, os pés que nos animam, os pés que nos fazem correr, os pés que nos fazem esperar. Faz este elogio e esta espécie de elegia aos pés.

Um detalhe estranho coincide com esta visão surpreendente: a de um comandante guerrilheiro que, como ministro de Estado, estava naquela conferência internacional como o grande astro – e dizendo que os pés é que eram importantes. Quando Che já estava na Bolívia, na travessia de um rio, a balsa é levada pela correnteza e ele perde as botas guerrilheiras..Não havia botas de reposição. Os guerrilheiros, então, matam um animal do campo e ele faz, com o couro cru, uma espécie de “sandália romana” que enrola nos pés. E é com estes pés, enrolados numa “sandália romana”, que ele é capturado na guerrilha. Porque ele tenta saltar de uma rocha para outra mas, traído pelos pés, ele cai. Ou seja: ele tinha razão. O fundamental eram os pés. Surpreendente mas concreto”.

Como se deu o encontro que você organizou entre Leonel Brizola e Che Guevara ?

Flávio Tavares:  “O presidente do Uruguai oferece, em casa, em Punta Del Este, um churrasco para Che Guevara, com toda a delegação uruguaia. Convida só um estrangeiro: o jovem governador do Rio Grande do Sul, Leonel Brizola, que, ali, era o conselheiro especial da delegação brasileira, nomeado pelo presidente Jânio Quadros. O presidente uruguaio queria reunir os gaúchos: Uruguai, Argentina, Rio Grande do Sul. Brizola perguntou a Che como era Cuba, onde é que ficavam as minas de níquel sobre as quais Che Guevara se referia. Che explica de uma maneira engraçada. Brizola pergunta “Ficam no norte ou no sul? “. Che Guevara diz: “Cuba não tem nem norte nem sul. Cuba é como uma lingüiça espichada no mar Caribe….”.  Dias depois, Brizola me chama. Diz : “Só quero me despedir uma pessoa: traga o comandante Che Guevara !”.  Fui encontrar Che Guevara num hotel, numa crise de asma. Eu me lembro: cheguei a entrar no quarto, a contragosto da segurança cubana, que não queria deixar. Mas,como  já me tinham visto com o Che, não iriam cair em cima de alguém que já tinham visto com o “comandante”. Quando entrei, o Che estava sentado na cama, com a bombinha de asma. Era uma cama de solteiro. Havia no quarto duas camas. Explico a ele que o governador do Rio Grande do Sul ia deixar a conferência. Che Guevara, então, sobe no nosso carro – do governo do Rio Grande do Sul. Vamos à sede da conferência, que era muito próxima. Os dois se encontram.  Brizola, ao fim, me faz o seguinte comentário: “Isso não é uma conferência dos povos da América Latina. É uma conferência das oligarquias latino-americanas ! ”. Naquela época, 1961, aquele frase não era de Brizola: era de Che Guevara – que ele incorporou.  Isso foi em torno do dia dez de agosto. Quinze dias depois, o presidente Jânio Quadros renuncia. Os ministros militares vetam a posse do vice-presidente João Goulart – que estava na China comunista, em missão oficial.  O veto militar era um golpe de estado. Brizola se rebela, literalmente, no Rio Grande do DSul, a tal que ponto que o III Exército adere à rebelião e passa a exigir a posse de João Goulart. Agora, eu pergunto, como conclusão deste encontro:  Brizola,até então, não tinha tido nenhum ato revolucionário. 1961 foi um ato revolucionário – até  de rebelião armada. Se Brizola não tivesse tido aquelas conversas com Che Guevara; se não tivesse conhecido o Che; se não tivesse sido influenciado pela mística do Che; se não tivesse, sob certos aspectos, tentado copiar ou imitar aquele mística do Che, bem ou mal, não teria havido aquela rebelião de 1961 no Rio Grande do Sul. Não teria havido o Movimento da Legalidade que faz, agora, cinqüenta anos. Digo: a influência de Che Guevara pode ter sido por nada do que ele tenha dito a Brizola. Mas pela figura do Che, o revolucionário. E é preciso ver isso com os olhos de 1961, não com os olhos de hoje, quando as revoluções perderam o sentido”.

Continua:

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